Associação Brasileira da Construção

Industrializada de Concreto

Industrializar em Concreto 21 - dezembro de 2020

DE OLHO NO SETOR

Industrialização em concreto esteve em evidência em importantes eventos do setor da construção no quarto trimestre

O Encontro Nacional de Engenharia e Consultoria Estrutural (ENECE), o Concrete Show Xperience e o Seminário Tecnologia de Estruturas apresentaram cases e avaliações sobre a importância da aplicação do sistema construtivo para alcançar benefícios de produtividade, sustentabilidade, racionalização, qualidade e atendimento de prazos e cronograma

A construção industrializada de concreto esteve em destaque em importantes eventos setoriais nacionais promovidos nos meses de outubro e novembro deste ano, com apoio e participação da ABCIC. As apresentações reforçaram o papel fundamental da industrialização para o incremento de produtividade nas obras, mas também para obter outros benefícios inerentes a esse sistema construtivo. 
O primeiro evento foi o ENECE 2020 - 23º Encontro Nacional de Engenharia e Consultoria Estrutural, realizado pela Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (Abece), entre os dias 19 a 21 de outubro, com a presença remota de centenas de participantes por dia. 
A palestra de enceramento do evento ficou por conta do engenheiro Francisco Paulo Graziano, diretor da Pasqua & Graziano, que, acompanhado por Marcelo Pulcinelli, vice-presidente de Engenharia da Matec e Marco Antonio Oliveira, sócio-diretor da CPI Engenharia, apresentou as soluções em estruturas pré-fabricadas de concreto sendo decisivas para a viabilização do Parque da Cidade - Gleba B, constituído por três torres, com 23, 20 e 17 pavimentos respectivamente, 5 e 6 subsolos e heliponto,  com certificação LEED Gold.   
O empreendimento, localizado em São Paulo (SP), é dividido em quatro grandes glebas, composto por cinco torres corporativas, uma de escritórios, duas residenciais, três restaurantes, um shopping e um hotel, distribuídos em um parque, em um terreno com 245 mil m² de área construída. 
Segundo Pulcinelli, quando a HSI – Hemisfério Sul Investimentos comprou o empreendimento, ele já havia sido aprovado pela prefeitura. Assim, o primeiro desafio foi não alterar a arquitetura aprovada, o que fez com que a engenheira fosse limitada por essa definição. Outra questão foi o prazo. “O empreendimento só se viabilizaria em termos de retorno para investidores se executada entre 26 e 28 de meses, por isso foi importante o desenvolvimento de soluções de engenharia e elaboração de projetos simultâneos ao andamento da obra”, disse.  
O projeto já está em fase de entrega e deve ser finalizado ao final do ano. “Foram 26 meses de desafio, sendo 10 meses para todo detalhamento do projeto, a fim de propiciar o atendimento ao cronograma”, comentou Pulcinelli. 

O projeto do Parque da Cidade - Gleba B foi detalhado aos participantes do ENECE. Essa área é constituída por três torres, com 23, 20 e 17 pavimentos respectivamente, 5 e 6 subsolos e heliponto.

Para a estrutura de concreto, o vice-presidente da Matec explicou que foram feitos três grandes ensaios – moldado in loco, metálica e pré-moldado para a definição do melhor modelo estrutural, com o propósito de garantir o desempenho de todo o projeto. “Precisávamos de uma solução estrutural que permitisse executar as três torres da Gleba B simultaneamente e com embasamento, ou seja, que a estrutura fosse sendo içada enquanto as demais atividades ocorressem ao mesmo tempo, alcançando a terminalidade em todas as áreas”. 
De acordo com Graziano, a estrutura metálica era a mais cara e, apesar do moldado in loco ser mais barato, o pré-fabricado de concreto era o mais adequado para atender a necessidade de prazo, terminalidade e volume de obra. Outro aspecto, por ele destacado, como fator de decisão foi a precisão dimensional das estruturas pré-fabricadas de concreto.
Oliveira contou sobre a organização e o desenvolvimento do projeto, com o objetivo de sustentar todo o processo de desenvolvimento e minimizar os riscos. A CPI trouxe no protótipo todos os desafios no canteiro de obras, viabilizando o tempo de montagem da obra. “Houve um ciclo de seis meses de estudo e um ano de projeto, testando as formas, definindo o sistema de montagem, equipamentos e logística”. Foram mais de dois mil desenhos feitos e houve a padronização para facilitar a produção e para atender o avanço de obras das estruturas, permitindo a entrada da instalação e das fachadas. Foram usados mais de 28 mil peças pré-moldadas e mais de 73 mil m³ de concreto, entre pré-moldado e vertical. “A questão logística foi pensada também para estocar as estruturas e expedir no momento certo da montagem. Além disso, foram previstos todos os movimentos e todas as deformações para a estabilidade da obra”.
Conforme comentou Graziano, foram 290 mil m² de projeto estrutural. Para isso, foram usados protótipos reais e virtuais para validação do sistema estrutural. “Fizemos um teste efetivo na fábrica da CPI para ver se havia alguma coisa que não funcionaria direito. Com isso, encontramos pontos a serem corrigidos”. Foram realizados ainda ensaios de túnel de vento para validação das cargas, levando em consideração o impacto da construção das torres vizinhas. “Sem dúvida, os muitos pequenos detalhes consolidaram o sucesso do projeto”.
Em sua apresentação, o engenheiro projetista de estruturas explicou que o “pulo do gato” do processo é não haver qualquer tipo de escoramento. Para isso, os pilares moldados in loco escorregam por uma canaleta, se adaptando de forma a ficar meio equilibrada na lateral. Então, a pré-viga é apoiada sobre o pilar solteiro e a consolidação preenche os vazios entre as duas pré-vigas e o pilar. Logo após, a laje alveolar se apoia e é feita a consolidação final. Uma das partes mais importante do processo foi o capeamento e consolidação final da parte superior da pré-viga e do pilar. 
Pulcinelli relembrou que houve um questionamento sobre a estabilidade e o risco de tombamento do protótipo da viga sem escoramento. “Foi demonstrado o total equilíbrio e estabilidade porque ele mostrou que a viga se apoia no pilar, resultando em uma rigidez grande que tira qualquer tipo de risco”. 
Em termos de desafios, ele citou o solo rochoso, que acabou atrasando o início da construção das estruturas. “Esse contratempo fez a decisão de seguir no sistema pré-moldado de concreto ser ainda mais  acertada”. Quando a rocha aparecia na operação, o empreendimento, que tinha um sequenciamento de embasamento, precisou mudar sua sequência até a liberação da escavação. 
A logística também foi outro desafio porque, apesar da grandeza do terreno, a logística e o espaço para circulação dentro do canteiro era mínimo. O acesso era feito por uma rua lateral à Marginal Pinheiros. Nesse sentido, a obra teve início com o bloco 1, seguindo para o 2 e depois para o 3. “Quando entrou no pico da estrutura, tivemos que trabalhar vinte e quatro horas por dia”, relembrou Pulcinelli. 
Outro ponto destacado foi o papel do Core, que estabilizou o conjunto e deu suporte para o “extracore” pré-fabricado em quase toda sua construção. “A conjunção do pré-fabricado e do moldado in loco que funcionou perfeitamente e não houve problema do fluxo da obra”, avaliou Graziano. Os subsolos, feitos 100% com pré-fabricado de concreto, foram a frente absoluta para a entrada dos demais serviços. O primeiro andar, com 14 metros, também usou o sistema. “Ele foi finalizado em duas semanas no máximo. Isso mostra o impacto de se ter adotado um processo mais industrializado, que contribui para agilizar os outros processos da obra”, acrescentou.
O uso de moldado in loco poderia trazer alguma preocupação ante ao cronograma, de acordo com Oliveira. Mas, o desenvolvimento em BIM e a forma como foi planejado o desenvolvimento vertical do empreendimento resolveu essa preocupação. Todos os elementos, inclusive os insertos e as ancoragens de fachadas, foram previstos. “A estratégia foi ter sempre dois andares de gaiolas produzidas em canteiro e serem só alçadas e montadas para a futura instalação da forma e concretagem”.  A produção em fábrica não parou, criando um estoque provisório – 5 mil peças – para não comprometer a obra. 
Desse modo, a equipe de Graziano adaptou as conexões para ganhar velocidade e autonomia, liberando pequenos trechos. O fato é que a obra foi montada como um quebra-cabeça, conforme a o cumprimento das etapas anteriores. 
Sobre o sistema auto trepante do Core, Oliveira explanou que ele subia de forma independente antes da aplicação do pré-moldado de concreto. A parte interna trabalhava mantendo os nichos, com um sistema próprio de bombeamento de concreto. Em dois dias, os pilares tinham a condição de receber a montagem. Assim, cada torre era suprida por duas gruas e as três estruturas acabaram praticamente juntas. 
Ao final da apresentação, o vice-presidente da Matec ressaltou a importância da inteligência integrada nesse projeto. “São muitos conhecimentos, ideias e desenhos. O projeto foi em 100% BIM, desde o escaneamento do terreno. Houve a compatibilização entre arquitetura, planejamento e engenharia”, ratificou. A construtora contratou também um serviço de filmagem para acompanhamento da obra em tempo real. “Escaneávamos a obra inteira, com uma tecnologia que fazia medições no local, fornecendo imagens tridimensionais e volumetria, o que possibilitou comparar momentos diferentes nas fases de execução”, finalizou.
O Enece também contou com a apresentação do engenheiro espanhol Hugo Corres Peiretti, presidente honorário da fib (Federação Internacional do Concreto), logo no primeiro dia do evento, que trouxe as últimas novidades sobre o Model Code 2020, norma única para obras novas e existentes. “O documento tem claramente uma visão geral desses dois tipos de estruturas, a fim de minimizar as diferenças e alcançar melhores resultados. Apenas no caso de ser essencial, haverá regras específicas para estruturas novas e para comprovação de estruturas existentes e projetos de intervenção nas existentes”.
Um ponto tratado por Corres Peiretti foi a sustentabilidade. “Esse é um aspecto importantíssimo e precisamos estar conscientes do seu valor extraordinário. Por isso, temos que mudar a mentalidade e cuidar mais desse tema”. A seu ver, de todas as fases de uma obra, o maior impacto está no planejamento. “A decisão precisa ser sustentável desde o início. O projeto precisa sair já com esse conceito para ser feito de forma a minimizar o impacto ambiental das obras”. Em sua avaliação, a sustentabilidade não pode ser vista como um problema, mas sim como decisões que refletem o que se quer para a sociedade. Por isso, ele afirmou a importância da escolha dos materiais e da tipologia estrutural para uma obra sustentável.
Concrete Show Xperience
Entre os dias 10 e 12 de novembro, foi realizado o Concrete Show Xperience. A abertura do segundo dia de programação foi realizada pelo engenheiro Augusto Pedreira de Freitas, sócio-diretor da Pedreira Engenharia e conselheiro da Abece, que tratou do tema Industrialização da construção em concreto e sua viabilidade em edifícios residenciais e corporativos. A engenheira Íria Doniak, presidente executiva da Abcic, mediou o debate com interação do público participante ao final da apresentação.