Associação Brasileira da Construção

Industrializada de Concreto

Industrializar em Concreto 11 - agosto de 2017

PONTO DE VISTA

Legado para a construção industrializada de concreto

Engenheiro civil formado pela Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (EESC-USP), Mounir Khalil El Debs é reconhecido como um dos mais importantes profissionais da área de estruturas de concreto do país, além de ser um dos mais renomados pesquisadores também no segmento da construção industrializada de concreto. Mestre e doutor em Engenharia de Estruturas pela USP, contribuiu sobremaneira para o desenvolvimento do pré-fabricado de concreto no país. Um estudioso do sistema construtivo, nos mais de quarenta anos de atuação na engenharia nacional, influenciou a formação de milhares de engenheiros e orientou teses e dissertações de pesquisadores e professores que, atualmente, contribuem para a evolução tecnológica do setor. A seguir, trechos da entrevista concedida à Industrializar em Concreto:

Poderia contar um pouco sobre sua trajetória profissional?
Em 1972, me formei em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da São Carlos da USP (EESC–USP). No segundo semestre deste ano, realizei um estágio com foco no projeto estrutural do edifício de administração do aeroporto do Galeão (RJ), na HIDROSERVICE Engenharia e Projetos, que na época era a maior empresa de projetos do Brasil. Embora tenha sido contratado como engenheiro, no início de 1973, decidi pedir demissão e fazer o mestrado em tempo integral na EESC-USP, na área de Engenharia de Estruturas, sob a orientação do professor Dante Martinelli, com bolsa da FAPESP. Quando a bolsa se encerrou, comecei a ministrar aulas na área de estruturas de concreto, em escolas particulares e também passei a atuar na área de projeto e construção de casas. Em 1976, finalizei o mestrado e continuei com atividades docentes e em projetos, cada vez mais voltados para área de estruturas de concreto. Em 1979, fui convidado para ser professor em tempo integral na EESC-USP no Departamento de Engenharia de Estruturas, ministrando aulas de estruturas de concreto, concreto protendido e pontes de concreto. Em 1981, ingressei no doutorado e, em 1982, prestei um processo seletivo e fui aceito para professor no recém-criado curso de engenharia civil da UFSCar, para trabalhar com sistemas construtivos. Em 1984, conclui o doutorado e como não havia programa de pós-graduação e nem perspectivas de criação nas áreas de engenharia Civil, acabei voltando para a USP, em um programa de contratação de jovens talentos, em 1987. Prestei concurso de livre-docência junto ao Departamento de Engenharia de Estruturas da EESC-USP, em 1991, e fiz um estágio na Universidade de Michigan com duração de um ano (1994-95). Em 2006 fui aprovado e indicado para Professor Titular no Departamento de Engenharia de Estruturas da EESC-USP, atingindo o nível mais alto da carreira universitária. Aposentei em 2014, mas na sequência me tornei professor sênior (professor aposentado colaborador), junto ao Departamento de Engenharia de Estruturas.
Quando e como foi o início dos trabalhos e estudos na área de pré-fabricado de concreto?
Considero que o marco inicial foi no final dos anos 80, quando foi formado o chamado Grupo São Carlos de Argamassa Armada, liderado pelo professor João Bento de Hanai, com foco no emprego da argamassa armada (AA) na forma de pré-moldados leves. Nesta época, foram feitos vários estudos e prestações de serviços, incluindo ensaios, concentrados na aplicação da AA em elementos pré-moldados, mas havia também trabalhos com pré-moldado de concreto. Outro marco ocorreu com o meu retorno à EESC-USP, em 1987, quando fui contratado para criar uma linha de pesquisa nesta área, o que incluía a criação de uma disciplina para dar suporte a esta ação. A partir dessas duas ações, fui direcionando as pesquisas para o concreto pré-moldado, em especial, para as ligações entre elementos, em função de sua importância nas estruturas.  Destaco também a importância do estágio na Universidade de Michigan, com o professor Tony Naaman, que envolveu os materiais com fibras curtas e uma análise das pesquisas na área de concreto pré-moldado. Foi durante esse estágio, que tive a oportunidade de pensar no formato para uma publicação nacional neste segmento e de reunir o material necessário para a elaboração do livro “Concreto pré-moldado: fundamentos e aplicações”, publicado em 2000. 
Quais foram as motivações que o levaram a trabalhar com o pré-moldado de concreto?
No último ano da graduação (1972), cursei duas disciplinas optativas sobre cascas de concreto (cascas de rotação e cascas de translação), ministradas pelo professor Dante Martinelli. Nessas disciplinas e na orientação do mestrado, ele mostrava com entusiasmo obras relacionadas com a técnica da pré-moldagem, do renomado engenheiro italiano P.L. Nervi. Dentre as obras, uma em particular me marcou: o Palacete de Esportes de Roma. Também me motivou a disciplina Concreto protendido, cursada em 1973 e ministrada pelo professor Vasconcelos, que considero o pai do concreto pré-moldado no Brasil, a luz do código modelo CEB 70, que trazia significativas mudanças em relação ao concreto estrutural (concreto armado e protendido). Nesta disciplina foram apresentados vários exemplos relacionados ao assunto. Merece registrar também a influência do professor e arquiteto Paulo Camargo, junto à comunidade da EESC-USP, na década de 70. Ele fez visitas a diversos países da Europa reunindo uma quantidade considerável de material em relação à industrialização da construção, que foi disponibilizado na forma de relatório. 
Em mais de quatro décadas dedicadas à engenharia nacional, qual sua avaliação desse segmento no país?
O setor de concreto pré-moldado no Brasil era concentrado em poucas empresas. Seu crescimento ocorreu nas décadas de 60 e 70, e continuou até o início da década de 80, quando veio crise na construção. Acho que houve um impacto no segmento, com as fábricas para construção de escolas de argamassa armada, os chamados Centros de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente. A concepção da arquitetura e do sistema construtivo feita pelo arquiteto João Figueiras Lima (Lelé) foi brilhante. Os condicionantes de construção da primeira escola, que seria transitória, no interior de Goiás eram: previsão de desmontabilidade, arquitetura própria para clima quente e seco, ambiente não agressivo para a argamassa armada, montagem manual e emprego de mão de obra local. O sistema, com algumas mudanças, foi empregado em todo o país, como o programa de governo no início dos anos 90. Mas, naturalmente, as condições, na maioria das vezes, não eram as mesmas da primeira escola. Isso significa que elas não eram transitórias, os locais onde eram construídas não eram quentes e secos, o ambiente era agressivo, o que trazia problema de durabilidade para a argamassa armada, e não havia mais necessidade de utilizar pré-moldados leves. Embora tivesse sido feita uma quantidade considerável de escolas, o sistema foi sendo abandonado. Mas seu impacto foi grande na criação de novas empresas no segmento, em diversas regiões do país. Podemos dizer, assim, que o concreto pré-moldado se popularizou. 
Quais mudanças que percebeu ao longo de sua carreira no setor de pré-fabricado?
Até os anos 80, os fabricantes, em geral, ditavam a forma de aplicação, mas isso foi mudando e eles tiveram que se ajustar para atender aos projetos arquitetônicos. A publicação Pré-moldados de concreto: coletânea de obras brasileiras, de 2008, da ABCIC e da ABCP, mostra diversos exemplos de aplicações nas quais se pode notar essa mudança. Ao longo desse tempo, também houve o surgimento de várias empresas de porte médio distribuídas no território nacional e a incorporação mais rápida de inovações. Um exemplo é o emprego do concreto auto adensável (CAA) nos pré-fabricados, cujo desenvolvimento iniciou-se no Japão no final da década de 80, objetivando a moldagem de elementos de concreto com altas taxas de armadura. Ela foi sendo apropriada pela indústria do concreto no pré-moldado tendo em vista, entre outras vantagens, a diminuição da mão de obra na operação de moldagem e a redução do barulho. Outro aspecto importante foi a ampliação de fabricantes de painéis alveolares, cuja produção, em metros quadrados por habitantes, é utilizada como índice da industrialização. Não tenho o índice atual no Brasil, mas certamente aumentou bastante desde o início da década 1980, quando os painéis alveolares tornaram-se disponíveis comercialmente no Brasil por um fabricante. 
Quais os principais benefícios do pré-fabricado de concreto para o mercado?
O concreto pré-fabricado oferece uma série de benefícios para a sociedade, que devem justificar a ampliação do seu mercado. Em relação à sustentabilidade, podem ser relacionados os seguintes aspectos benéficos: a redução do material, com o emprego de seções transversais ou formas estruturais mais eficientes, ou ainda emprego de materiais de alto desempenho; a redução de desperdícios, na fábrica e na construção; a reciclagem dos materiais na fabricação dos componentes; as possibilidades de reúso de partes da construção mediante projetos com previsão de desmontabilidade e o menor consumo de energia mediante a incorporação de isolamento, inércia térmica e acabamentos. O sistema também traz benefícios em termos de produtividade e qualidade e nas condições de trabalho dos operários, porque a manufatura dos componentes em fábricas proporciona melhores condições, como local protegido das intempéries. A rapidez da construção do pré-fabricado de concreto minimiza, ainda, a perturbação ao meio ambiente no entorno da construção, como barulho e tráfego. No caso de pontes, sua utilização reduziria o canteiro e o tempo da construção, e portanto, os inconvenientes e riscos de obras de desvios. 
Em sua opinião, quais são as tendências em pré-fabricados nos próximos anos?
Os estudos e as aplicações do concreto pré-moldado que tendem a ser cada vez mais frequentes estão relacionados aos materiais, ao projeto e à produção. Em função das condições de moldagem e controle, o concreto pré-moldado tem melhores condições de se apropriar do desenvolvimento dos materiais. Dessa forma, pode-se prever o uso cada vez maior de concreto com maior resistência e também é de se esperar mais aplicações do UHPC (Ultra High Performance Concrete, que seria um compósito de material cimentício com fibras, que exibe resistência à compressão acima de 150MPa e resistência à tração, após fissuração, de 5MPa). As perspectivas em relação à elaboração de projetos estão na área de softwares de análise estrutural, com mais recursos, dentro de sistemas integrados, como o BIM. De fato, já está se tornando comum o emprego do BIM na indústria que, além da garantia de melhor qualidade dos projetos e da integração com a produção, trazem benefícios que se estendem para toda a vida útil da construção. Em relação à análise estrutural, pode ser incorporado o comportamento de ligações semirrígidas, que apresentam caraterísticas intermediárias entre as ligações articuladas e rígidas. Na verdade, a maioria dos softwares de análise estrutural já dispõe deste recurso, cuja utilização passaria por mais estudos das ligações para determinação de parâmetros de projeto. Em relação à produção, a mecanização e a automatização da fabricação de determinados componentes de uso intensivo, principalmente aqueles de produção especializada, tendem a aumentar. Há ainda de se destacar a possibilidade de melhoria do controle de qualidade dos elementos pré-moldados mediante, por exemplo, a utilização de ensaios não destrutivos e a verificação de precisão dimensional por laser. Em um horizonte mais longo, pode-se prever a fabricação de determinados componentes com impressora 3D. Como todos os sistemas estruturais, o concreto pré-moldado vai ter que se adequar às demandas da sociedade em relação à sustentabilidade. As características do concreto pré-moldado que reduzem a perturbação ambiental devem também estar cada vez mais presentes. É de se esperar também um acréscimo do emprego de componentes pré-moldados de concreto arquitetônico e associações do concreto pré-moldado com concreto moldado no local ou outros materiais estruturais, visando à racionalização da construção.