Associação Brasileira da Construção

Industrializada de Concreto

Industrializar em Concreto 22 - abril de 2021

PONTO DE VISTA

O legado de um gigante da engenharia brasileira

Tributo ao Professor Augusto Carlos Vasconcelos


Membro do Júri do Prêmio Obra do Ano da Abcic, Vasconcelos tinha prazer em avaliar os trabalhos, participar  do momento das premiações e homenagens

Ele sempre buscou participar dos eventos promovidos pela Abcic, como os seminários e workshops nacionais e internacionais, os eventos de conteúdo realizados durante o Concrete Show e em outras feiras de negócios, demonstrando seu apreço e carinho aos profissionais do setor de pré-fabricados de concreto e à entidade. Um dos momentos mais marcantes da associação foi a comemoração dos 10 anos de atividades, em 2001. Na ocasião, a Protendit foi homenageada por seu cinquentenário e o então presidente da empresa, Olegário Pereira da Silva, convidou Vasconcelos para estar com ele no recebimento daquela condecoração. Ele ainda foi homenageado juntamente com o professor José Zamarion Ferreira Diniz, durante o lançamento do livro Pré-Moldados de Concreto - Coletânea de Obras Brasileiras - 1ª edição. 
O professor Vasconcelos sempre foi muito atuante nas comissões de norma das estruturas de concreto de sua época. Participou do 1º Projeto de Norma Brasileira de Estruturas de Concreto Protendido, em 1963, e posteriormente da versão final denominada ABNT NBR7197 - Projeto de Estruturas de Concreto Protendido de 1989.
Participou das revisões da norma para Projeto e Execução de Estruturas de Concreto Armado, inicialmente denominada NB1 – 1ª norma editada pela ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, em 1940. A partir de sua 3ª versão (1960) e as posteriores (1978, 2003 e 2014) recebeu a nomenclatura NBR6118 - Projeto de Estruturas de Concreto Estrutural.
Em 1991, ele desenvolveu e apresentou, em conjunto com o professor Mario Franco, o trabalho "Practical Assessment of Second Order Effects in Tall Buildings", no Colloquium on the CEB-FIP Model Code 90, COPPE-UFRJ Rio de Janeiro, em agosto de 1991. Esse processo de cálculo de efeitos de 2ª ordem foi introduzido na versão 2003 da ABNT NBR 6118 com o nome Gama Z.
Desde o início da colaboração da ABNT com o CEB-Comitê Euro-internacional do Concreto, em 1960, ele assumiu a posição de suplente dos professores Fernando Lobo Carneiro e Telêmaco Van Langendonck. Também participou da Comissão de Pré-moldados da FIP – Federação Internacional da Protensão, atual comissão 6 de pré-fabricados da fib (International federation for structural concrete). Quando da união CEB-FIP em 1997, criando a fib, por conta do falecimento do professor Telêmaco, ele assumiu a posição de delegado do grupo brasileiro junto à esta entidade. 

Representando todos os projetistas que receberam o prêmio  ao longo das edições do Prêmio Obra do Ano, o engenheiro Marcelo Cuadrado, diretor Técnico da Abcic, disse ao ganhar a premiação em 2016, que “receber a homenagem das mãos do professor foi meu maior prêmio”. Este era o sentimento de todos os profissionais de estruturas no momento desta homenagem.

Durante 30 anos, contou com um escritório próprio de engenharia estrutural, que projetou importantes obras brasileiras, como as pontes na Rodovia dos Imigrantes (a maior delas na Baixada Santista), na Rodovia dos Bandeirantes (DERSA), na Rodovia Pedro I (Campinas-Dutra), no Paraná (para Albuquerque & Takaoka e para TH Marinho de Andrade). Em Goiás, ganhou o concurso de projeto da ponte de 900 m (9 vãos de 100 m) sobre o Rio Tocantins em Porto Nacional. Ele se aposentou em 1980, porém dando continuidade aos estudos e atividades na área como engenheiro consultor no seu escritório de cálculo.
Em termos de homenagem e premiações, Vasco recebeu o Prêmio Emilio Baumgart, do Instituto Brasileiro do Concreto (Ibracon), o título de “Membro Honorário”, do Instituto do Concreto Americano (ACI), “Personalidade da Engenharia Estrutural”, da Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (Abece)  e foi eleito o Engenheiro do Ano de 1993, pelo Instituto de Engenharia de São Paulo (IE). Também recebeu uma homenagem especial da entidade em 2017 e durante o 21º Seminário Tecnologia de Edificações do Sindicato da Construção do Estado de São Paulo (SindusCon-SP).
Carismático e sociável, o professor Vasconcelos participou como conselheiro ou diretor das principais entidades brasileiras na área do concreto e da engenharia e esteve presente nos principais eventos do setor da construção no país, como o Congresso Brasileiro do Concreto, do Ibracon; o Encontro Nacional de Engenharia e Consultoria Estrutural (Enece), da Abece; as reuniões organizadas pelo Instituto de Engenharia; e as nove edições do Prêmio Obra do Ano em Pré-Fabricados de Concreto, como membro do Júri, representando a categoria de engenheiros projetistas, idealizado e promovido pela Abcic. 
Nesse sentido, o estimado engenheiro estrutural buscou sempre prestigiar os seminários, workshops e congressos organizados pela Abcic. Em 2015, por exemplo, durante o seminário no Concrete Show, ele ressaltou um dos desafios que a pré-fabricação de concreto enfrenta até os dias atuais: “A Abcic tem um grande trabalho pela frente para tentar mudar a forma como os órgãos públicos encaram a pré-fabricação. Eles incidem impostos nas empresas do segmento como se a construção industrializada de concreto fosse igual a uma indústria mecânica ou de automóveis, mas ela é uma indústria da construção”. 
Quando a entidade realizou, em 2016, a Jornada Internacional Abcic Estruturas Pré-moldadas de Concreto, Vasconcelos comentou que esse tipo de evento precisaria ser realizado constantemente no país, a fim de que as inovações existentes no resto do mundo possam ser vistas no país. “Esperamos que o Brasil entre na era dos outros países mais desenvolvidos no caso do pré-fabricado de concreto”, disse à época.
Para homenagear essa personalidade extraordinária, a Revista Industrializar em Concreto, buscou reunir ensinamentos, ponderações e depoimentos concedidos por ele ao longo de sua vida em diversas ocasiões, a fim de enfatizar sua sensibilidade e sua grandiosidade perante à vida e à engenharia. Confira a seguir: 
A engenharia civil como segunda opção de carreira
Na verdade, minha opção inicial foi pela Engenharia Elétrica, pelo grande interesse que tinha pelo funcionamento das coisas. Mas, meu estágio no IPT me levou para a construção e tive contato com o concreto. Depois, na Poli, tive acesso maior às tecnologias do concreto e todos os desafios proporcionados pelo uso do material e por seu desenvolvimento futuro.  Com isso, por acaso, entrei para a área do concreto e não saí mais. Isso mostra como a vida nos leva a situações que a gente não imagina.
Vivência em Munique para pós-graduação
Cheguei à Alemanha pouco antes de completar 30 anos e Munique estava destruída, excetuando-se a vida cultural, que me concedeu oportunidades de ir a muitos concertos. Naquela época, tudo estava em reconstrução e para a construção ou substituição de pontes, por exemplo, estava sendo utilizado o concreto protendido, que possibilitava alcançar vãos maiores com menos custos. E os professores das universidades, como Hubert Rüsch, meu orientador e professor do curso de concreto protendido estavam encarregados de verificar o projeto. Assim que soube dessa disciplina, pensei: não vou perder essa oportunidade e me matriculei, pois era algo muito novo. Rusch confiou em mim e começou a emprestar-me essas verificações para estudo, o que me deram subsídio para pesquisas futuras sobre estruturas, pontes e concreto. Me considero muito sortudo por ter estado na Alemanha nessa época, em que os projetos precisavam ser verificados. Aproveitei muito esse momento. 
Início do concreto protendido no país?
As primeiras construções brasileiras de concreto protendido foram feitas com projetos franceses entre 1947 e 1949. Não existia nada didático no país até então, principalmente sobre concreto protendido. Depois que voltei da Alemanha, encontrei por aqui um campo favorável para a introdução do concreto protendido com sistema de pré-tração. Pouco se fazia neste campo, então minha audácia me levou a realizar a pré-tração em cabos de 5mm. Tive a sorte de começar com estacas que só necessitavam de protensão até serem posicionadas verticalmente para a cravação. Depois de tudo dar certo aventurei-me a estudar a produção para a galpões pré-moldados tipo “shed”.