Associação Brasileira da Construção

Industrializada de Concreto

Industrializar em Concreto 5 - agosto de 2015

PONTO DE VISTA

Sistemas industrializados contribuem para o aumento de produtividade na construção civil 

A Método Potencial Engenharia é considerada uma das construtoras mais inovadoras do país. Esse reconhecimento é decorrente da ação efetiva de seu diretor-presidente e sócio-fundador o engenheiro Hugo Marques da Rosa, que sempre apostou em tecnologia e inovação, o que contribui para que ao longo de mais de 40 anos de história, a empresa tenha implementado novas tecnologias construtivas, novos conceitos na indústria da construção civil e desenvolvido empreendimentos de vanguarda. Um exemplo desse pioneirismo foi a introdução, na década de 90, do conceito de construção a seco e "Off Site Construction", que transformou canteiros em linhas de montagem, elevando o nível da qualidade e produtividade nas obras.
Formado em Engenharia de Produção pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP), o gaúcho Hugo Rosa, em entrevista à Industrializar em Concreto, destaca a importância dos investimentos em inovação e tecnologia na construção civil ressalta a importância de utilizar os sistemas industrializados, a fim de obter uma maior produtividade nos canteiros e nas obras em todo o país e faz uma análise da atual conjuntura econômico e seus impactos no segmento. "Temos atualmente o grande desafio de manter as taxas de rentabilidade num cenário com menos obras e constante pressão para a redução de custos. Para tanto, a solução é focar no aumento de produtividade, o que pode ser obtido mediante a utilização de sistemas industrializados".
Na sequência, confira os principais pontos abordados por ele:
O senhor sempre foi um entusiasta da industrialização e da adoção de métodos construtivos inovadores e que agregam produtividade aos processos construtivos. Nesse sentido, como analisa o uso de estruturas pré-fabricadas de concreto na construção brasileira?
Durante o período de forte crescimento, entre os anos de 2007 e 2012, a construção civil brasileira, impulsionada pela escassez de mão de obra, vivenciou importantes avanços no uso de estruturas pré-fabricadas de concreto devido à necessidade de cumprimento de prazos relativos a diversas obras que eram realizadas de forma simultânea. Inúmeras situações contribuíram para o desenvolvimento de estruturas pré-fabricadas no país, dentre elas, vale destacar a publicação de diversas Normas Técnicas pertinentes ao tema, o aumento de tipologias construtivas horizontalizadas com grande repetitividade, tal como shopping centers e centros de distribuição, além da maior familiarização de projetistas e fornecedores de mão de obra com tal tecnologia. Passado o período de forte crescimento, temos atualmente o grande desafio de manter as taxas de rentabilidade num cenário com menos obras e constante pressão para a redução de custos. Para tanto, a solução é focar no aumento de produtividade, o que pode ser obtido mediante a utilização de sistemas industrializados.
Elas têm sido utilizadas com a intensidade necessária para os ganhos de produtividade que a construção civil brasileira necessita?
As estruturas pré-fabricadas são concebidas em larga escala para projetos de grande porte, incluindo-se shopping centers, centros de distribuição, aeroportos, centros comerciais e outros. O que viabiliza o uso da estrutura pré-moldada é a grande repetitividade, ou seja, padronização de vãos e sobrecargas constantes. Entretanto, o uso deste tipo de estrutura ainda é limitado em razão da necessidade de utilização de equipamentos de grande porte como, por exemplo, gruas. O alto custo para utilização dos equipamentos de grande porte representa um obstáculo para a disseminação da tecnologia, já que seu uso acaba concentrado em construtoras e obras de maior porte.
Em que medida os sistemas construtivos industrializados contribuem para se conseguir ganhos de produtividade?
As tecnologias disponíveis no mercado podem reduzir o número de colaboradores e, ainda, os prazos para execução das obras. Isso porque com sistemas construtivos industrializados, o processo de produção é transferido para a indústria, ambiente controlado com maior garantia de qualidade. Com isso, a construtora reduz a necessidade de controles em campo, elimina a realização de trabalhos artesanais e, enquanto o produto é desenvolvido na fábrica, a obra pode se ocupar simultaneamente de outras atividades.
Qual o potencial de uso dessas estruturas na atual conjuntura da construção no Brasil?
A indústria da construção civil do Brasil é considerada atrasada quando comparada a outros ramos industriais. Isso ocorre porque o setor apresenta baixa produtividade, serviços muito artesanais, grandes desperdícios de materiais e baixo controle de qualidade. Por esta razão, ações voltadas para o aumento de produtividade são muito significativas na construção de um empreendimento, o que pode ser obtido, por exemplo, através do uso de tecnologias pré-fabricadas. Ao analisar todo o ciclo do empreendimento, a utilização de estrutura pré-fabricada de concreto permite a redução de custos se comparada à utilização de estrutura de concreto moldada "in loco", em especial no que tange à redução de custos para aquisição/locação de formas e cimbramentos.
Quais os principais entraves ao seu maior uso pelas construtoras e recomendação dos projetistas?
O primeiro entrave é a comum comparação entre o uso da tecnologia convencional com a tecnologia inovadora, o que não leva a nada. Isso porque se deve mensurar não somente os custos envolvidos diretamente, mas também os benefícios decorrentes de todo o ciclo de vida do empreendimento, o que engloba, entre outros benefícios, ganhos de produtividade com a consequente redução nos custos indiretos. Outro entrave é a questão que envolve a disponibilidade e custo de equipamentos para a construção civil. No Brasil, comparativamente a países de 1º mundo, o custo é alto e o acesso é limitado em relação a equipamentos que podem melhorar a logística do canteiro e aumentar a produtividade. Por fim, muitos projetos ainda não levam em consideração importantes fatores de exequibilidade técnica, o que reduz consideravelmente a capacidade de aumento de produtividade de uma tecnologia industrializada.
O que deve ser feito para estimular sua utilização?
A forma mais adequada para elevar o nível da industrialização na construção é a realização de estudos de viabilidade, de forma séria, que possibilite a visão do todo e a tomada de decisão com a máxima segurança possível, com a consequente minimização de riscos. No caso da estrutura pré-fabricada de concreto, ações governamentais que facilitem o acesso a equipamentos de grande porte podem melhorar a logística da obra e estimular a utilização em larga escala.
Em última instância, o processo de industrialização da construção transformará as construtoras em montadoras. A Método está nesse processo em que estágio?
A Método tem a inovação em seu DNA. Essa característica contribuiu para que ao longo de sua história introduzisse novas tecnologias construtivas, desenvolvesse empreendimentos pioneiros e estruturasse diferentes segmentos de negócios. Sempre à frente do setor, a Método busca introduzir conceitos da indústria na construção civil, automatizando processos, otimizando recursos e aumentando a produtividade. Todas essas ações são possíveis em razão da implantação do sistema de gestão de projetos (PMO-Project Management Office), e da clara estratégia difundida por toda a companhia, o que permite que os colaboradores atuem de forma focada e mais produtiva. Visando fortalecer ainda mais o seu potencial inovador, a Método desenvolveu o Núcleo de Inovação e Engenharia - NINE, área responsável pela centralização, consolidação e disseminação do conhecimento tecnológico da organização e pela busca de projetos de inovação que tragam resultados extraordinários.
Quais os exemplos concretos do uso de sistemas construtivos industrializados pela Método que resultaram em ganhos de produtividade, encurtamento de prazos ou redução de custos?
Na década de 90, introduzimos no Brasil o conceito de construção a seco e "Off Site Construction", transformando canteiros em linhas de montagem e elevando o nível da qualidade e produtividade nas obras. Destaque especial para a implantação do Sistema Horizontal e Vertical - SHV para a execução das estruturas; Sistema Drywall para os fechamentos internos e Pré-moldados arquitetônicos de fachada - STAMP. Desde 2012, em parceria com a POLI, FDTE e NGI, desenvolvemos o curso extensão denominado "Programa de Capacitação em Tecnologia e Gestão da Produção", cujo objetivo é preparar nossos profissionais para garantir a excelência operacional na execução das obras. Focado na engenharia aplicada, ele abrange as principais tecnologias construtivas e capacitam o corpo técnico na garantia da qualidade, atendimento de normas e boas práticas construtivas. Reconhecida pelo pioneirismo no uso da tecnologia BIM, atingimos agora novos patamares com o BIM 5D, integrando a modelagem 3D com o controle de prazos e custos. Inovando na relação com os fornecedores, atuamos sistematicamente na formação de parceiros, o que resulta em maior produtividade, qualidade e redução de custos. Em 2014 concluímos a primeira turma do "Programa Empreendedores da Construção", em parceria com o SEBRAE-SP, que permitiu uma melhor integração e capacitação de fornecedores. Atualmente estamos desenvolvendo Projetos de Inovação que visam aumentar a competividade da organização e alavancar o setor da construção civil no país, uma vez que para o desenvolvimento destes projetos é necessário o envolvimento de toda a cadeia de valor. Estes projetos envolvem inovação de produtos, processos e organizacionais que resultarão em aumento de produtividade e qualidade, redução de desperdícios e geração de resíduos.  Todas as nossas ações de inovação são focadas em geração de resultados.
De que forma a construção industrializada contribui com a sustentabilidade social, econômico e ambiental do setor?
A industrialização na construção civil é sem dúvidas uma das melhores formas de atingir padrões superiores de sustentabilidade. Isso porque a construção civil brasileira gera, massivamente, grande quantidade de resíduos. Segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a quantidade de resíduo gerada é de aproximadamente 550kg/ano/habitante. Dessa forma, ao se substituir processos artesanais por processos mais industrializados, é possível que se proporcione a redução de impactos ambientais, desenvolvimento de trabalhos sustentáveis e garantir avanços sociais e econômicos decorrentes da necessidade de capacitação de mão de obra, com maior especialização e qualificação.
Qual sua análise sobre o momento atual e as perspectivas futuras da construção civil no Brasil, em termos tecnológicos e também de mercado?
O setor passa por um momento difícil. A redução das vendas do mercado imobiliário e a dificuldade enfrentada pelas obras que necessitam de recursos públicos como o PAC, Minha Casa Minha Vida e também os casos de desvio de conduta em investigação causaram uma retração da economia, desestimulando o investimento. Todos esses fatores somados deixam clara a desorganização do setor. São poucas as empresas que, nesse momento, estão preocupadas com o desenvolvimento tecnológico. A Método sempre apostou em tecnologia e inovação e estamos investindo nesse desenvolvimento para seguir crescendo no futuro. Este cenário econômico deve perdurar em 2015 e 2016. A retomada do crescimento brasileiro deve acontecer somente após 2017 com um setor da construção bem diferente do que é hoje. Em minha opinião, o desenvolvimento tecnológico é uma tendência irreversível. Muitas vezes tratado como segundo plano em uma crise, acredito que o tema é permanente e por isso continuamos apostando em tecnologia.