Associação Brasileira da Construção

Industrializada de Concreto

Industrializar em Concreto 20 - outubro de 2020

INDUSTRIALIZAÇÃO EM PAUTA

Webinar do Instituto de Engenharia abordou a qualidade no setor de pré-fabricados

A presidente executiva da Abcic, a engenheira Íria Doniak, apresentou um panorama geral sobre o tema, enfatizando a interface entre projeto, produção e montagem e destacando que a indústria nacional está preparada para atender demandas crescentes com qualidade, segurança e sustentabilidade

No dia 27 de agosto, a engenheira Íria Doniak, presidente executiva da Abcic, ministrou palestra no webinar Qualidade das Estruturas pré-moldadas de Concreto, promovido pelo Instituto de Engenharia em parceria com a Abcic, e o apoio institucional do Crea-SP.
O evento online contou com a presença dos engenheiros Rafael Timerman, coordenador da Divisão Técnica de Estruturas do Instituto de Engenharia, Luiz Otávio Baggio Livi, diretor de Marketing da Abcic e de Estruturas Pré-Fabricadas da ABECE, Douglas Couto, da PhD Engenharia, além de Lucas Massaro, Luca Moreno e Vinícius Caruso, do Instituto de Engenharia.
Ela iniciou sua apresentação comentando sobre as ações da Abcic e contextualizou os segmentos de aplicação do pré-fabricado de concreto, como a área de infraestrutura – aeroportos, mobilidade urbana, estações de metrô, infraestrutura viária e ferroviária -, complexos esportivos, programas habitacionais, edifícios verticais, em fachadas, em projetos especiais, shoppings, escolas, edifícios garagem, universidades, energia eólica, centros de distribuição e logística, entre outros. 
Durante o evento virtual, Íria trouxe conceitos básicos que mostram a diferença entre as estruturas pré-moldadas das estruturas pré-fabricadas de concreto e das convencionais moldadas in loco. “Toda a estrutura moldada fora de seu uso definitivo é pré-moldada, para ser pré-fabricada a produção necessariamente ocorre em ambiente industrial. Para ser uma indústria, é preciso atender determinados parâmetros de qualidade, como controle do desvio padrão de concreto, capacitação, máquinas e equipamento, tais parâmetros estão estabelecidos na ABNT NBR 9062. Não basta apenas operar dentro de um ambiente específico. Esta norma define requisitos importantes de Projeto e Execução das Estruturas Pré-Moldadas de concreto. Quanto à qualidade tanto o pré-moldado de canteiro quanto de fábrica terão qualidade se atenderem a todos os requisitos nela estabelecidos”, disse. 
Segundo Íria, o problema é quando decide-se utilizar este sistema para produzir no canteiro sem o atendimento do que preconiza a norma. “Precisamos lembrar que existem esforços introduzidos pelas chamadas situações transitórias (movimentação, transporte, armazenamento e montagem dos elementos estruturais) e as ligações (elementos de conexão entre as peças) que por vezes tem função durante a montagem, assegurando a estabilidade global”.
Ela comentou sobre a normalização do setor, incluindo aquelas ligadas exclusivamente ao pré-fabricado de concreto e aquelas relativas à área do concreto e as normas regulamentadoras de segurança como a NR-18, recentemente revisada e publicada. Nesse sentido, citou alguns aspectos relevantes da ABNT NBR 9062 - Projeto e execução de estruturas de concreto pré-moldado incluindo a produção e a montagem
Na sequência, ressaltou a fundamental importância da interface entre os três processos: projeto, produção e montagem, que pode impactar a produtividade e a qualidade das estruturas pré-fabricadas de concreto. Por isso, apresentou as fases de cada um desses processos e afirmou que “é preciso ter uma interação entre projeto, produção e montagem, porque, caso contrário, pode impactar em um dos principais requisitos do cliente que é prazo de entrega da obra”.
A questão logística é fundamental para o pré-fabricado de concreto, portanto, além da interação dos processos o planejamento de montagem é vital. O planejamento é o principal aspecto que diferencia os sistemas industrializados  da forma convencional de construir. “Não é possível industrializar sem uma mudança de mentalidade tratando como se fora adaptações da forma habitual de construir”, asseverou a presidente executiva da Abcic, que comentou sobre o Manual de Montagem da Abcic, um instrumento importante de referência para o setor. 
Íria explicou que a tecnologia do concreto deve levar em conta as situações transitórias, pois os elementos são submetidos, com o concreto em baixa idade, a outros esforços, tais como saque das formas (concreto armado) ou liberação da protensão (pistas – concreto protendido), manuseio, movimentação, armazenamento e montagem. 
“A dosagem deve ser dimensionada para que a peça possa ser desformada ou liberada a protensão, nas resistências prescritas na ABNT NBR 9062, caso de elementos protendidos com 21,0MPa e elementos armados, conforme especificações do projeto da estrutura ou procedimento da empresa aprovado pelo projetista. O controle tecnológico deve levar em consideração estes aspectos e que as dosagens sejam validadas também pelo Módulo de Elasticidade”. 
Ela alertou ainda para o fato de que o concreto não é apenas dimensionado para a resistência de projeto, até porque muitas vezes com 7 dias ou menos a estrutura já está carregada. Lembrou também sobre a importância da tecnologia do concreto, incluindo o adequado controle para as peças arquitetônicas, para a uniformidade das peças e uso de outros concretos como o auto adensável e desenvolvimentos em curso como UHPC e outros pelos quais a competividade do setor passará necessariamente, visando pela qualidade do material assegurar a durabilidade e principalmente reduzir o peso dos elementos o que impactará diretamente nos custos de transporte  e montagem. 
Outro ponto tratado pela presidente executiva da Abcic foi as ligações. “Não adianta ter a correta especificação das ligações (projeto) e a correta execução, se eu não usar os materiais especificados. Estamos falando de durabilidade dos elementos de ligações, que influem diretamente no comportamento da estrutura montada”. 
Desse modo, o planejamento é fundamental para que haja a eficiência estrutural requerida, a exequibilidade na obra e com o custo assertivo. “Nesse sentido, qualidade significa qualificação de todos os envolvidos nos processos, desde o projetista de estruturas até o pessoal de montagem”, acrescentou Íria. 
A tolerância também esteve entre as questões apontadas em sua apresentação. Ela lembrou que a indústria nacional tem produzido obras com zero de desvio a pedido de clientes. Para isso, há a integração do BIM (Building Information Modeling) ao processo de qualidade e de outras tecnologias da Indústria 4.0, como o escaneamento das peças. Ela explicou o conceito de desvio, folga e tolerância, sem os quais não se pode atingir a qualidade requerida e que também estão especificadas, em milímetros, em norma.   
Segundo Íria, o cliente deveria exigir da indústria os seguintes aspectos: resistência estrutural adequada, vida útil elevada, ser funcional, baixo custo de operação e manutenção, preço acessível e assegurar prazo de entrega. “É importante pensar não apenas na qualidade do processo construtivo, mas também do projeto”. Para qualidade na indústria e produção, ela citou a identificação e rastreabilidade do produto; controle dimensional; controle tecnológico; gestão dos processos com ênfase nas interfaces: projeto-produção e montagem e não confundir qualificação de materiais com a análise de desempenho durante a produção. 
Logo após, ela citou o Selo de Excelência Abcic, uma das principais referências para a qualidade, produtividade, sustentabilidade e segurança na área da construção industrializada de concreto. Por fim, concluiu que a industrialização da construção é essencial para vencer os desafios do país em relação a produtividade seja no segmento imobiliário ou na infraestrutura. Contudo, a adoção dos sistemas construtivos industrializados requer maior planejamento e integração desde a fase de projeto. “A indústria fornece soluções e prioriza qualidade, segurança e meio ambiente. Temos um grande potencial de desenvolvimento de sua aplicação no país, quer seja com as soluções já existentes, já desenvolvidas e não aplicadas (inovação), ou integradas com outros sistemas construtivos”.