Associação Brasileira da Construção

Industrializada de Concreto

Industrializar em Concreto 21 - dezembro de 2020

ARTIGO TÉCNICO

CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DE VIABILIDADE DA APLICAÇÃO DE RESERVATÓRIOS EM CONCRETO PRÉ-MOLDADO NA INFRAESTRUTURA URBANA

O objetivo deste artigo é apresentar um estudo de viabilidade econômico-financeira da aplicação do concreto pré-moldado na construção de reservatórios apoiados a ser implementados em uma empresa de saneamento básico, comparando-o com análise da utilização de estruturas de concreto moldado no local. Foram avaliados os reservatórios com capacidades de 2.000 m³, 5.000 m³ e 10.000 m³ e os resultados indicaram que a viabilidade econômico-financeira da aplicação do concreto pré-moldado nessas obras está diretamente ligada à antecipação do lucro operacional no início do fluxo de caixa, ou seja, a redução do prazo de construção se apresenta como elevado potencial para viabilizar o projeto, uma vez que a antecipação da operação do abastecimento de água possibilita acumular um acréscimo de lucro que não seria possível com a alternativa do reservatório em concreto moldado no local. Além disso, através de um conjunto de análises de sensibilidades, foi possível identificar que a diferença entre os prazos de execução dos dois sistemas construtivos e o lucro operacional da concessionária por unidade de consumo (residência) são as variáveis que causam maior impacto no custo anual do projeto, enquanto as variações da vida útil do projeto e dos custos com manutenção resultaram em menor impacto na viabilidade do investimento.

Introdução
De modo geral, o Brasil é um país onde há predominância de sistema construtivo caracterizado pela utilização de métodos ou processos convencionais e com uso elevado de mão de obra. Nesse cenário, a construção civil brasileira está relacionada a processos com altos custos, baixa nível ou ausência de planejamento, baixa qualidade do trabalhador, elevados índices de desperdícios, baixa qualidade dos serviços e recorrentes manifestações patológicas e baixo desempenho ambiental (LEAL et al./ABDI,2015).
Em relação aos países desenvolvidos, a construção civil brasileira necessita ainda de aumento de produtividade, desenvolvimento de inovações, busca pela racionalização, padronização e aumento de escala, com sustentabilidade (FILHA et al./BNDES,2009).
Entre os vários setores da construção civil, o setor de infraestrutura sanitária possui potencial e demanda suficiente de obras para implantação de novos sistemas construtivos, como o concreto pré-moldado. Em países desenvolvidos da Europa e nos Estados Unidos, a aplicação do concreto pré-moldado em obras de saneamento básico já uma realidade e empresas de projetos podem analisar a viabilidade de empregar essa alternativa na construção das unidades dos sistemas de saneamento.
Embora no território brasileiro o saneamento básico seja um direito assegurado pela Constituição Federal de 1988 e pela Lei nº 11.445/2007, dados publicados pela Secretaria Nacional de Saneamento, em seu relatório de Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgotos (SNIS,2018), apontam que, no Brasil, o índice médio de atendimento com rede de abastecimento de água tratada é de 92,8% da população urbana e para o atendimento com rede coletora de esgoto é de 60,9% da população urbana, com os piores índices nas regiões norte e nordeste. Dessa forma, para que ocorra a universalização da prestação de serviço público de saneamento básico nos 5.570 municípios do Brasil (IBGE,2020) , há necessidade de vultosos investimentos no setor, além de um planejamento bem estruturado para os próximos anos.
Cercado de outras obras de relevante importância para o funcionamento dos sistemas de saneamento básico, destacam-se as construções de reservatórios de distribuição, que são unidades do sistema de abastecimento de água necessários para o adequado fornecimento de água potável à população.
De acordo com a localização no terreno, os reservatórios são classificados como enterrado (completamente embutido no terreno), semienterrado ou parcialmente enterrado, apoiado (laje de fundo apoiada no terreno) e elevado (sustentado por estruturas de elevação). A finalidade dos reservatórios é a de garantir a quantidade de água (uma vez que a demanda de consumo de água varia ao longo do dia), proporcionar redução dos diâmetros no sistema e melhorar as condições de pressão (GUIMARÃES et al, 2007). A Figura 1 apresenta um exemplo de montagem de um reservatório circular apoiado em painéis de concreto pré-moldado, executado nos EUA.

Figura 1: Montagem de reservatório em concreto pré-moldado (EUA)

Conforme determinado pela Lei nº 11.445/2007, o Plano Nacional de Saneamento Básico (PLANSAB, 2013) foi elaborado e estabeleceu que, até 2033, a meta de universalização do saneamento deve ser atingida no Brasil. Nesse contexto, o estudo da implantação de novos sistemas construtivos, diferentes dos tradicionais utilizados para obras de infraestrutura sanitária, com possibilidade de melhoria na gestão de projetos, otimização dos recursos, redução dos desperdícios e do impacto ambiental, maior vida útil e redução das manutenções, além do menor prazo de execução, torna-se um objeto muito relevante para análise, já que o aumento do índice de atendimento do saneamento básico, em âmbito nacional, somente será alcançado com a conclusão e interligação de obras de engenharia.
Segundo El Debs (2017), as características das construções de infraestrutura favorecem a aplicação do concreto pré-moldado por se tratarem de obras que se constituem praticamente da estrutura, com condições favoráveis à padronização e por possuírem, geralmente, aplicação em grande escala. A utilização do concreto pré-moldado em obras de reservatórios pode ser uma alternativa de projeto de grande interesse para suprir a demanda brasileira por obras de infraestrutura sanitária, tendo em vista o déficit atual.
Empresas concessionárias de serviços públicos de abastecimento de água norteiam seus investimentos através da utilização de ferramentas/métodos de estudos de viabilidade econômico-financeira para tomada de decisão dos projetos que serão aceitos e aqueles que serão excluídos do seu plano de investimento.
O Custo Anual Equivalente (CAE) é um método utilizado para se avaliar a viabilidade econômico-financeira entre dois ou mais tipos de projetos de investimentos que não se diferenciam no fluxo de caixa das receitas, porém apresentam diferentes valores de investimento inicial e custos de manutenção. Botteon (2009) conceitua que o Custo Anual Equivalente é utilizado para comparação entre custos de projetos de investimentos e é definido como o resultado da transformação do fluxo de todos os custos do projeto (aquisição, construção e manutenções) num fluxo anual uniforme. Por fim, a decisão entre qual projeto escolher é simplificada, recomendando-se optar pelo projeto com menor valor de CAE.
O valor do CAE é calculado a partir da equação 1: