Associação Brasileira da Construção

Industrializada de Concreto

Industrializar em Concreto 38 - setembro de 2026

DE OLHO NO SETOR

Pré-fabricação de concreto acelera adoção de novas tecnologias

Especialistas reunidos no ENAFIBRAS 2026, incluindo a engenheira Ligia Doniak (Abcic), defenderam avanço da normalização, qualificação da cadeia produtiva e integração entre indústria e academia para consolidar novas aplicações em pré-fabricados e estruturas

O uso de concreto reforçado com fibras vem ganhando espaço no Brasil e desponta como uma das tecnologias mais promissoras para a industrialização da construção. No painel “Avanços nas aplicações de fibras em Pré-Fabricados, Pavimentos, Pisos e Estruturas Diversas”, durante a ENAFIBRAS 2026, promovida pelo Instituto Brasileiro de Fibras para Reforço do Concreto (IFRC), no dia 16 de abril, em São Paulo, foram debatidos a necessidade de evolução cultural do mercado, o avanço das normas técnicas e o potencial do UHPC (Ultra-High Performance Concrete) e das fibras para contribuir com a construção no país.  

Com a mediação de Romário Lima, diretor de Inovação e Novas Aplicações do IFRC, o painel contou com a participação de Ligia Doniak, coordenadora de Projetos Especiais – Tecnologia da Abcic; Paulo Koelle, fundador da Stone; e Cesar Felipe, gerente de obras da Alphapisos.

A indústria de pré-fabricados vem ampliando investimentos em pesquisa e desenvolvimento, segundo Ligia, que apontou que cerca de 60% das empresas associadas já estudam ou implementam soluções com UHPC, conforme informações do Caderno de Dados Setoriais da Abcic. 

Para a engenheira, a pré-fabricação oferece um ambiente favorável à adoção da tecnologia devido ao maior controle industrial dos processos produtivos. Entretanto, ela alertou sobre os desafios da escala industrial. “Uma coisa é produzir um metro cúbico em laboratório. Outra, completamente diferente, é concretar uma pista de 100 metros em ambiente fabril, controlando a dosagem, o lançamento e a distribuição das fibras ao longo da seção”, explicou.

Ligia também destacou a participação da Abcic no desenvolvimento da futura norma brasileira voltada ao projeto com UHPC, baseada em referências internacionais e adaptada à realidade nacional. Segundo ela, o texto reúne representantes de universidades, projetistas, fornecedores e indústrias, promovendo discussões amplas para evitar interpretações equivocadas e garantir segurança técnica ao mercado. “A previsão é que a norma vá para consulta pública até o final deste ano”, afirmou.

Durante o painel, Koelle relembrou experiências anteriores da construção industrializada em que a ausência de padronização comprometeu mercados promissores. “O problema começa quando surgem aplicações sem projeto, sem diretriz e sem controle. Isso gera patologias, o mercado perde confiança e a tecnologia acaba desacreditada”, alertou. Como exemplo, apresentou o histórico dos pisos elevados e das primeiras aplicações de elementos pré-fabricados leves, que só recuperaram credibilidade após a criação de comitês técnicos e de normas específicas.

Um ponto trazido por Felipe foi que a qualidade da execução será determinante para consolidação das fibras no mercado. “A solução precisa ser bem estruturada do começo ao fim. Se qualquer elo da cadeia falhar, a tecnologia pode acabar se queimando”, ponderou. Segundo ele, ainda há resistência cultural em parte do mercado, especialmente entre clientes acostumados ao uso tradicional de telas metálicas e de armaduras convencionais.

Possibilidades estruturais

De acordo com a coordenadora de projetos especiais da Abcic, o momento é de mudança de mentalidade na engenharia. “Precisamos parar de pensar apenas na substituição da armadura convencional e começar a explorar as novas possibilidades estruturais que esses materiais oferecem”.

A redução das seções estruturais representa um dos principais ganhos para a pré-fabricação. “A diminuição do peso dos elementos otimiza logística, transporte, montagem e verticalização. Isso tem impacto significativo em toda a cadeia produtiva”, explicou.

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