DE OLHO NO SETOR
Especialistas reunidos no ENAFIBRAS 2026, incluindo a engenheira Ligia Doniak (Abcic), defenderam avanço da normalização, qualificação da cadeia produtiva e integração entre indústria e academia para consolidar novas aplicações em pré-fabricados e estruturas
"Nesse contexto, o trabalho desenvolvido pela ABCIC tem sido extremamente relevante para consolidar soluções cada vez mais eficientes, seguras e competitivas para o mercado brasileiro”, ponderou Lima.
O professor Marco Carnio, da PUC-Campinas, considera que a construção industrializada vive um momento importante de transição na adoção do concreto reforçado com fibras. Segundo ele, a tecnologia começa a ganhar espaço efetivo na indústria de pré-fabricados.
Na sua avaliação, o avanço da normalização técnica será decisivo para acelerar esse movimento, oferecendo maior segurança a projetistas, fabricantes e investidores. "Estamos evoluindo em várias frentes normativas, tanto para o concreto reforçado com fibras convencionais quanto para concretos de alta resistência e UHPC. Esse conjunto de normas dará mais segurança para que o mercado avance com confiança", afirmou Cárnio.
O professor ressalta, entretanto, que a publicação das normas representa apenas uma etapa desse processo. A consolidação da tecnologia dependerá de um período de amadurecimento, no qual empresas e profissionais adquirirão experiência, desenvolverão projetos e ampliarão as aplicações em escala comercial. "Algumas empresas naturalmente sairão na frente, mas há um tempo de maturação até que o mercado se aproprie da tecnologia. Foi assim em diversos países e tende a acontecer também no Brasil", explicou.
O concreto reforçado com fibras já percorreu esse caminho em outros segmentos da construção e agora inicia um ciclo semelhante na indústria de pré-fabricados. "Percebo que, nos últimos anos, o setor passou a olhar para essa tecnologia com muito mais atenção. Estamos entrando em um ciclo virtuoso, no qual as vantagens técnicas e econômicas começam a impulsionar sua utilização de forma cada vez mais consistente”, explica Carnio.
Em sua apresentação no Enafibras, Carlos José Massucato, consultor Técnico no hubIC e no Centro de Inovação em Construção Sustentável da Universidade de São Paulo, mostrou que a China montou um plano para adoção acelerada da industrialização em concreto no país. A partir desse plano é possível perceber que a menor curva de emissões de CO2 está justamente na pré-fabricação de concreto. Mencionou ainda que a indústria deve partir para a desmaterialização e o uso de fibras será fundamental.
Importância da normalização
A evolução da normalização técnica também foi destacada por Lilian Sarrouf, superintendente do ABNT/CB-002 – Comitê Brasileiro da Construção Civil. “Hoje, existe uma grande comunidade técnica trabalhando para desenvolver normas cada vez mais robustas e precisas. O nível dos documentos evoluiu significativamente, acompanhando o avanço das tecnologias e das necessidades da construção civil.”
Um dos principais desafios deixou de ser apenas elaborar normas técnicas e passou a ser ampliar sua divulgação entre profissionais, empresas e instituições de ensino. "As normas ainda são pouco conhecidas. Precisamos aproximar esse conhecimento do meio técnico e acadêmico, começando pelos estudantes de engenharia e arquitetura, para que esses conceitos façam parte da formação dos futuros profissionais”, disse Lilian.
Em relação à pré-fabricação de concreto, reiterou que o setor foi um dos primeiros a buscar a normalização, mas ponderou sobre a necessidade de estar em constante evolução, criando novas normas e atualizando as já existentes para contemplar as novas aplicações da construção industrializada.
Outro aspecto ressaltado é a incorporação de temas transversais às normas técnicas, como sustentabilidade. "Hoje, as normas também precisam considerar os impactos positivos e negativos das soluções construtivas sobre o meio ambiente. Esses temas passam a agregar valor às empresas e tornam o setor mais competitivo”, enfatizou a engenheira.