ABCIC EM AÇÃO
Segunda edição do Abcic Webinar Series destacou os avanços normativos, estruturais e tecnológicos do concreto reforçado com fibras e do UHPC, ampliando as possibilidades da construção industrializada de concreto no Brasil
Brasil avança na normalização do UHPC
Na sequência, a engenheira Ana Jacintho, professora do Programa de Pós-Graduação em Sistemas de Infraestrutura Urbana da PUC Campinas, apresentou o estágio atual da normalização brasileira do UHPC, destacando que o país acompanha um movimento internacional já consolidado em países como Estados Unidos, Japão, França, Coreia do Sul e Canadá.
Segundo Ana, os trabalhos normativos no Brasil começaram oficialmente em 2019, por meio de uma comissão de estudos criada no âmbito da ABNT, a partir de uma iniciativa conjunta do IBRACON e da ABECE.
O desenvolvimento da norma brasileira foi dividido em duas frentes: caracterização dos materiais e procedimentos de projeto estrutural. Em 2025, foi publicada a ABNT NBR 17246 — Concreto de Ultra-Alto Desempenho – Parte 1: Classificação, requisitos e especificação, estruturada em quatro partes, padronizando classificação, requisitos, dosagens e ensaios do material.
Já a comissão ABNT CE-002:124.029 — Estruturas de Concreto de Ultra Alto Desempenho Reforçado com Fibras (UHPC), coordenada por Ana Jacintho, trabalha na elaboração da norma brasileira de projeto estrutural em UHPC, cuja publicação está prevista ainda para este ano. Atualmente, o grupo desenvolve os detalhamentos especiais relacionados a armaduras passivas, protensão, telas soldadas e critérios de durabilidade.
“Para a redação dessa norma, contamos com a colaboração de diversos especialistas internacionais, como os engenheiros Hugo Costa e Marco di Prisco. Entendemos que estamos no caminho certo para permitir que os projetos sejam desenvolvidos de forma econômica e segura”, afirmou Ana.
Durante sua apresentação, ela detalhou aspectos contemplados pela futura norma, incluindo materiais, durabilidade, cobrimento de armaduras, comportamento à compressão e à tração, análise estrutural, estados limites últimos, cisalhamento e estado limite de serviço.
O UHPC é definido como um concreto com resistência mínima à compressão de 100 MPa, podendo atingir até 250 MPa, além de apresentar resistência mínima à tração superior a 6 MPa e comportamento pós-fissuração diferenciado. O material é classificado em três categorias — T1, T2 e T3 — de acordo com seu desempenho pós-fissuração.
Ela destacou ainda que o comportamento estrutural do UHPC difere significativamente do concreto convencional, especialmente em relação à tração e à ductilidade. “O comportamento pós-fissuração é um dos grandes diferenciais do UHPC. Dependendo da classe, o material pode apresentar desde softening até hardening significativo”, explicou.
Outro ponto ressaltado foi a compatibilidade do UHPC com sistemas industrializados e pré-fabricados. Segundo Ana, o controle rigoroso de qualidade, as tolerâncias reduzidas e a rastreabilidade tornam o ambiente fabril ideal para o uso desse material. “Esse nível de controle só é possível de forma efetiva na pré-fabricação, o que torna o UHPC extremamente compatível com a industrialização da construção”, observou.
Academia reforça importância da pesquisa
A relevância da academia no desenvolvimento técnico do UHPC no Brasil foi destacada pelo engenheiro Daniel de Lima Araújo, professor titular da Universidade Federal de Goiás, que abordou o avanço das pesquisas relacionadas à caracterização e ao comportamento estrutural do material.
Segundo ele, ainda existem diferenças significativas entre as definições normativas internacionais do UHPC. Enquanto o American Concrete Institute (ACI), nos Estados Unidos, estabelece resistência mínima de 151 MPa, a França trabalha com parâmetros de 120 MPa e resistência à tração de 6 MPa, por exemplo.